Cap. 1º - Sempre que falta a electricidade ou quando aquela colcha que compramos na mulher da roupa é grande demais para caber na máquina de lavar, há que rumar com armas e bagagens aos - outrora - frequentadíssimos lavadouros públicos, ou em linguagem mais terra-a-terra, tanques de lavar roupa suja. E digo-vos já! Mas que experiência enriquecedora e não menos inolvidável que é frequentar um espaço com índices culturais tão elevados. Mas atenção, porque aquilo é tipo um clube privado. Não é qualquer dama de pé rapado sem poder de argumentação que lá consegue entrar. Não! Num lavadouro só lá entram as melhores, as predestinadas, as que tiveram a felicidade de receber o toque de Deus com esse magnífico dom que é versar acerca da vida alheia. Escrevo 'versar' porque a expressão típica desses locais é algo parecido com «essa mulher a Henriqueta é uma autêntica deslavada, Senhor me perdoe rais a pine a coitada». Isto é poesia de lavadouro e era bom que as pessoas não deixassem perder estas tradições ancestrais.
Cap. 2º - Como funciona uma sessão de lavar roupa suja: Para quem é estreante nestas andanças, existem alguns utensílios que devem por norma fazer parte do equipamento de uma lavadeira. Escova e sabão são indispensáveis, é certo, mas depois convém realmente levar alguma coisa para fazer de conta que se lava, por exemplo, um tapete velho. Assim os populares que circulam nas redondezas dos tanques pensam que você vai mesmo lavar roupa e não começam logo a falar mal de si. Lembre-se que o objectivo é ser você a falar mal de terceiros e não os outros de si. Depois da sua pessoa abandonar o local, as outras vão falar mal de si nas suas costas, mas isso já são outras conversas, literalmente!.jpg)
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Cap. 3º - Comportamentos a adoptar numa sessão de lavar roupa suja: Ao entrar no recinto de lavagem deve dar os cumprimentos a quem está, mas com mais ênfase naquelas que você sabe serem as matriarcas do grupo. Aquelas que são as especialistas da região na arte do escárnio e as mais fortes na área do maldizer. Se lhes elogiar o cabelo ou as unhas é garantido que vai conseguir sacar delas toda a informação que necessita sobre a vida intima da freguesia, incluindo a lista actualizada das ultimas traições e facadas no matrimónio. O adultério é um dos pontos fortes das sessões de lavagem. Anote isso se quer vingar neste mundo de verdadeira oralidade pornográfica, um perfeito antro de assustadoras orgias verbais, que assusta qualquer recente casal da freguesia acabadinho de casar..jpg)
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Cap. 4º - Frases para as quais tem que estar preparada: Geralmente, tudo começa com um simples «vai dar chuva» para logo a seguir prosseguir com um «sabes quem casou» e acabar de forma drástica e explosiva num «sabes quem foi a badalhoca que apanhou o marido para fora de casa e se foi a correr meter debaixo do Asdrubal da carne?». Claro que isto sou eu a resumir os temas postos em conversação dado que o post tem espaço limitado, porque se os assuntos forem correctamente esmiuçados pelas intervenientes, aquilo vai dar para as gralhas de serviço estarem ali a manhã toda e com um pouco de sorte, talvez principios da tarde..jpg)
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Cap. 5º - Regras de ouro e noções básicas: o segredo para quem é novata nestas andanças é mostrar sempre indignação pelos diferentes sucedidos, porque lavadeira indignada é sinónimo de mulher que se dá ao respeito perante estas ocorrências e ganha logo a admiração das restantes colegas de tanque. Outra regra de ouro que convém SEMPRE ter em atenção se pretende integrar o restrito lote de senhoras mestres fermelanenses que possuem o exclusivo das conversações sobre o alheio, é, atacar logo ali de pronto e quase sem pensar no que se vai dizer, alguma delas que se retire do tanque para ir para casa preparar o almoço. Tal como as mesquitas, um lavadouro é um espaço sagrado e quem se retira sem ter terminado de contar as novidades é pessoa de baixo nível e que revela falta de ética pelos princípios morais e fundamentais do alcoviteirismo. Ou na pior das hipóteses é pessoa que também tem algo a esconder e não quer ser visada pelas comparsas da ocasião. Também aqui nos lavadouros públicos se aplica a velha máxima «as ultimas a abandonar o tanque serão sempre as primeiras». Pelo menos são as que mais vão saber durante a seguinte semana.

Cap. 6º - Espaços onde esta tradição ainda se mantém: infelizmente, com a chegada do progresso, esta prática tão nobre foi caindo em desuso, pois, não só alguém teve a infeliz ideia de inventar a máquina de lavar roupa, como também, com as crescentes dificuldades económicas do novo casal português, as mulheres da aldeia tiveram que começar a empregar-se nas empresas das 8 às 20h enquanto outras passaram a trabalhar para o bronze de sol a sol nas mesas dos cafés, depois de alguém ter criado uma coisa chamada segurança social. Isto veio tirar tempo ao precioso acto de lavar roupa nos tanques. Em Fermelã restam poucos espaços decentes para a realização desta actividade e um deles até fica encostado a um cemitério, o que causa algum transtorno e falta de à vontade conversatório por parte das locutoras. Até porque algumas campas tem ouvidos e ao outro dia já tudo se vai saber nas redondezas. Nos tanques do cemitério a afluência é maioritariamente de lavadeiras da Ventosa, local de excelência na freguesia que reúne algumas das mais poderosas alcoviteiras da freguesia. Outro local propicio são os tanques da Corga, zona airosa, zona de passagem, zona de cruzamento de vastíssima informação. Nestes tanques chegava a vir gente de longe só para passar umas agradáveis horas de pura conversação alheia, mas depois, a mudança da tonalidade da água começou a afastar clientes, assim como, o roubo quase diário de tapetes que depois, durante as visitas pascais, se viria a descobrir em que casa é que estavam (diz ela que confundiu os tapetes quando os foi buscar). Enquanto os tanques do cemitério reúnem gente apenas de uma rua, aqui, juntam-se lavadeiras de vários quadrantes da terra, Deveza, Lameiro, Corredoura e, muito especialmente, Matinho.

Cap. 7º - Perspectivas de futuro: a partir de inícios dos anos 90 foi-se assistindo ao declínio progressivo da lavagem de roupa suja, até dando a forte impressão que passou a haver na freguesia apenas roupa limpa... e essa não se lava. Apareceram os cafés em força, inaugurou-se o posto médico, abriu-se um posto dos correios e as conversações que antigamente eram mantidas no fresco dos tanques, mudaram de ares para outras paragens, mais ou menos conhecidas. O facto da água que lavava os tapetes começar a ter proveniência das vacarias também não ajudou, o que é pena e revela falta de consideração por práticas tão tradicionais. Hoje sobram 3 ou 4 lavadeiras que ainda teimam em manter esse espírito antigo. Uma delas, a famosa viúva negra, é das poucas que ainda vai sendo vista em lavadouros a tirar o esterco das mantas, mas quase sempre sozinha, impossibilitando que se mantenha uma boa conversa à moda de antigamente, sobre o alheio e a vida sexual dos jovens casais.

Cap. 8º - Notas finais: como já vimos, a roupa que hipoteticamente se vai lavar ao tanque não precisa de estar obrigatoriamente suja. Qualquer trapo de tapeçaria marroquina serve, mesmo que seja acabadinho de comprar. O que interessa, acima de tudo, é o pretexto para lá ir lavar a língua. E podem crer que aquele tapete quando regressar a casa vem muito mais sujo do que aquilo que foi. É o preço a pagar pela mixórdia estragada e verborreia putrefacta que sai daquelas bocas plenas de ginástica oral obscena e que cruza as águas de um ponto ao outro do tanque, em conversas ricas em conteúdo impiedosamente lascivo, digno de levar com um placar com bolinha vermelha no portão de entrada.
Cap. 9º - Ultima curiosidade: apesar de tudo o que se escreveu acima, a frase mais comum que ainda hoje costuma ser dita nos tanques de lavar roupa é «nunca fui pessoa de me meter na vida de ninguém». Penso que esta afirmação é imponente demais para ser rebatida e fecha com chave de ouro este post.
9 euros:
A minha passagem preferida:
"a mudança da tonalidade da água começou a afastar clientes, assim como, o roubo quase diário de tapetes que depois, durante as visitas pascais, se viria a descobrir em que casa é que estavam"
De génio!
Pois eu cá assusta-me esta parte
!..antro de orgias e conteudo pornográfico$
Querem ver que fui feito nos tanques da Corga?
Meu pai já não é pinto da costa nem baia é minha mãe. Afinal minha mãe era lavadeira e meu pai vinha das obras e passava no tanque.
Tapetes que menacer vende não serem precisos lavar. Tapetes voadores de menacer ter sistema de lavagem automático. Tapetes de menacer tambem não serem roubados como os do fermelã porque tapetes de menacer ter sistema de segurança anti tapete-jacking.
Pois é.
Desactivam-se lavadouros devido ao progresso e à invenção da máquina-de-lavar.
Agora abre-se uma loja de vender máquinas-de-lavar-roupa e as lavadeiras vão até lá (antigas acarta-bilhas-de-leite incluídas).
2 em 1
Estimado alien, daí a expressão usada durante as visitas pascais
"ver as casas das pessoas por dentro".
Estimado emplastro, a mim parece mais que o seu pai é o sabão e sua mãe a escova.
Estimado menacer, a fome de tapecaria que aquela mulher tinha nem os seus tapetes marroquinos se safavam da gula dela.
Estimado bilha, vai um post sobre os antigos postos do leite? É capaz de ser interessante. Outra tradição que se perdeu. É uma vergonha pá.
A popularização da máquina de lavar está a contribuir para o desaparecimento destas "tertúlias". É uma pena perder-se mais uma tradição popular tão engraçada...
Estimado kruzes,
o desaparecimento dos lavadouros publicos tem outro ponto negativo respeitante a esta onda de criminalidade, passo a explicar:
-quando a policia viesse ao local do crime para tomar nota do sucedido, bastava dar um saltinho aos lavadouros e tenho quase a certeza que as senhoras que lavam a roupa suja iriam já ter uma teoria formulada em que fulano A chegou na noite do crime mais tarde a casa e ainda parou à porta de casa para telefonar a fulano B que por sua vez passou o dia todo a rondar a casa de fulano Y que é primo de fulano X que deve dinheiro a fulano Z. Logo, segundo as senhoras dos lavadouros, foi A que matou X porque Z é amigo de A.
capicce?
Temos no vale um clube (loja de máquinas de lavar), onde a tradição se manteve.
Ou seja, um lavadouro dos tempos modernos...?
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