Se os decadentes lavadouros públicos eram antros bem representativos da enorme implantação do fenómeno do «ratanço de aldeia» entre nós, que dizer então dos praticamente extintos postos do leite (PL)? Estes últimos, podemos na verdade considerá-los como a genuína sala de reuniões das repórteres de rua. Em toda a história da humanidade nunca se viu tamanha deposição de palavras por metro cúbico, como nestes locais onde as «vacas» são mesmo as últimas a ter voto na matéria. Aquilo eram milhares e milhares de trocas de correntes de informação por cada litro de leite trazido na «bilha». Algumas até misturavam água no leite para assim poderem estar mais tempo na linha da frente a «jorrar» para o contentor, ali bem no meio do salão, onde a informação corria célere como se no dia seguinte não houvesse assuntos novos para debater.
O local mais conhecido por todos é, certamente, o PL que se situava ali no largo Padre Miguel, bem junto à mercearia do «Manel da França». Ó que saudades desses tempos gloriosos em que ouvíamos uma novidade vinda da mercearia e aquilo começava a correr desde a parte traseira da fila do leite até chegar lá à frente, onde as mulheres abriam a boca de espanto e retorquíam: «a sério? Não me digas? Olha-me que desavergonhada aquela! Ai se os pais dela sabem, ainda por cima o pai que tem andado tão mal!» Vim eu mais tarde a saber que o grande problema ali era o facto de uma jovem moçoila bem conceituada na terra e já em idade casadoira, ter sido apanhada com um cigarro nos dedos. Fiquei tremendamente chocado na altura. Eu, que até engraçava com a rapariga, apesar dela ter cabedal suficiente para me deixar estendido no chão com os membros inferiores quebrados. Para quem nunca frequentou um PL, este era um claro exemplo de como as alegres tertúlias do PL mudavam completamente a imagem que nós tínhamos de fulana de tal. Era esta a magia dos PL´s.
Noutra sessão, passado uns dias, não sei qual era o assunto mas devia ser tão interessante que a mulher, quando terminou a conversação com a parceira, apercebeu-se que não tinha dado com o «orifício» do leite e esteve aquele tempo todo a verter o precioso liquido da bilha para o chão. Dizia ela: -«ai a minha cabeça que de tão ocupada que está já nem consigo dar com o buraco.» E realmente, não deu mesmo! Momentos épicos que eu ali vivi...
Escusado será dizer que um homem como eu metido num mundo exclusivo de mulheres tinha um único e firme objectivo: -um dia, quando a Internet chegasse à aldeia, iria criar um blogue para narrar estes heróicos acontecimentos. Era esta a força dos PL´s. A capacidade de agregar parceiros, muitas vezes desavindos por causa das partilhas dos pinhais, numa só voz que nem o padre na missa conseguia reunir tantos fiéis em volta de uma só causa que era, tão só e apenas, debater o estado da nação fermelanense.
Mas nem tudo eram rosas no universo dos PL´s. Anos mais tarde, veio a ordem para encerrar os PL´s tradicionais e a recolha passava a ser feita em algumas vacarias da zona. Mas não era a mesma coisa e iniciou-se aqui o declínio progressivo das «bilhas» do leite. Nas vacarias não havia aquele calor humano ardente próprio dos grandes momentos, como se sentia nos PL´s, porque nas vacarias era tudo com hora marcada para cada fornecedor, enquanto nos PL´s toda a gente ia mais ou menos à mesma hora, porque já se sabia que era naquele momento que se ia encontrar a «Maria do Manel da estrada», rever a «Guida do Benjamin que casou há pouco mas já produz leite em casa» e falar com a «Jacinta do Crispim que começou recentemente nestas lides de vir trazer o leite porque a mãe já não pode, coitada!» Compreendem o raciocínio? Levar o «nosso» leite à vacaria com hora estipulada e sem companhia era o mesmo que ir ver um jogo de bola sem ninguém no estádio.
Nos PL´s era diferente, porque uma pessoa ia chegando e sentava-se cá fora ou lá dentro, conforme o grau de importância dos temas disponíveis para discussão e aguardava a sua vez, de forma quase sempre ordeira, mas com o ouvidinho em estado de alerta máximo, não fosse passar por nós alguma informação útil sem darmos por ela. Como daquela vez em que se dizia numa ponta da fila que a srª X «teve muita sorte porque herdou dos sogros um serviço de porcelana banhado a ouro» e quando a conversa chegou à outra ponta da fila já se dizia que afinal «a malvada tinha roubado o serviço de casa dos pais do marido que estavam internados no hospital.»
E era assim pelos fins de tarde/princípios da noite, religiosamente todos os dias, excepto ao domingo, dia em que as vacas estavam proibidas de dar leite. Os PL´s eram o grande centro de convívio social, convívio são, convívio fraterno, até à hora em que alguém, sabe-se lá quem, lembrava aos presentes que estava na hora de ir fazer o jantar. No caso de algumas mais atrasadas, a hora era mais de cear do que propriamente jantar, «mas isso é lá com elas, cada uma sabe de si e não devemos nunca meter na vida de ninguém», era a frase com que se encerravam as tertúlias todas as noites.
Ah...velhos tempos! Mas até isso nos tiraram...
O local mais conhecido por todos é, certamente, o PL que se situava ali no largo Padre Miguel, bem junto à mercearia do «Manel da França». Ó que saudades desses tempos gloriosos em que ouvíamos uma novidade vinda da mercearia e aquilo começava a correr desde a parte traseira da fila do leite até chegar lá à frente, onde as mulheres abriam a boca de espanto e retorquíam: «a sério? Não me digas? Olha-me que desavergonhada aquela! Ai se os pais dela sabem, ainda por cima o pai que tem andado tão mal!» Vim eu mais tarde a saber que o grande problema ali era o facto de uma jovem moçoila bem conceituada na terra e já em idade casadoira, ter sido apanhada com um cigarro nos dedos. Fiquei tremendamente chocado na altura. Eu, que até engraçava com a rapariga, apesar dela ter cabedal suficiente para me deixar estendido no chão com os membros inferiores quebrados. Para quem nunca frequentou um PL, este era um claro exemplo de como as alegres tertúlias do PL mudavam completamente a imagem que nós tínhamos de fulana de tal. Era esta a magia dos PL´s.
Noutra sessão, passado uns dias, não sei qual era o assunto mas devia ser tão interessante que a mulher, quando terminou a conversação com a parceira, apercebeu-se que não tinha dado com o «orifício» do leite e esteve aquele tempo todo a verter o precioso liquido da bilha para o chão. Dizia ela: -«ai a minha cabeça que de tão ocupada que está já nem consigo dar com o buraco.» E realmente, não deu mesmo! Momentos épicos que eu ali vivi...
Escusado será dizer que um homem como eu metido num mundo exclusivo de mulheres tinha um único e firme objectivo: -um dia, quando a Internet chegasse à aldeia, iria criar um blogue para narrar estes heróicos acontecimentos. Era esta a força dos PL´s. A capacidade de agregar parceiros, muitas vezes desavindos por causa das partilhas dos pinhais, numa só voz que nem o padre na missa conseguia reunir tantos fiéis em volta de uma só causa que era, tão só e apenas, debater o estado da nação fermelanense.
Mas nem tudo eram rosas no universo dos PL´s. Anos mais tarde, veio a ordem para encerrar os PL´s tradicionais e a recolha passava a ser feita em algumas vacarias da zona. Mas não era a mesma coisa e iniciou-se aqui o declínio progressivo das «bilhas» do leite. Nas vacarias não havia aquele calor humano ardente próprio dos grandes momentos, como se sentia nos PL´s, porque nas vacarias era tudo com hora marcada para cada fornecedor, enquanto nos PL´s toda a gente ia mais ou menos à mesma hora, porque já se sabia que era naquele momento que se ia encontrar a «Maria do Manel da estrada», rever a «Guida do Benjamin que casou há pouco mas já produz leite em casa» e falar com a «Jacinta do Crispim que começou recentemente nestas lides de vir trazer o leite porque a mãe já não pode, coitada!» Compreendem o raciocínio? Levar o «nosso» leite à vacaria com hora estipulada e sem companhia era o mesmo que ir ver um jogo de bola sem ninguém no estádio.
Nos PL´s era diferente, porque uma pessoa ia chegando e sentava-se cá fora ou lá dentro, conforme o grau de importância dos temas disponíveis para discussão e aguardava a sua vez, de forma quase sempre ordeira, mas com o ouvidinho em estado de alerta máximo, não fosse passar por nós alguma informação útil sem darmos por ela. Como daquela vez em que se dizia numa ponta da fila que a srª X «teve muita sorte porque herdou dos sogros um serviço de porcelana banhado a ouro» e quando a conversa chegou à outra ponta da fila já se dizia que afinal «a malvada tinha roubado o serviço de casa dos pais do marido que estavam internados no hospital.»
E era assim pelos fins de tarde/princípios da noite, religiosamente todos os dias, excepto ao domingo, dia em que as vacas estavam proibidas de dar leite. Os PL´s eram o grande centro de convívio social, convívio são, convívio fraterno, até à hora em que alguém, sabe-se lá quem, lembrava aos presentes que estava na hora de ir fazer o jantar. No caso de algumas mais atrasadas, a hora era mais de cear do que propriamente jantar, «mas isso é lá com elas, cada uma sabe de si e não devemos nunca meter na vida de ninguém», era a frase com que se encerravam as tertúlias todas as noites.
Ah...velhos tempos! Mas até isso nos tiraram...
21 euros:
O amigo Fermelanidades até tem razão no que diz dos postos do leite,só com um reparo: Aos domingos também havia recolha de leite, pelo menos no posto do Vale. Era quando eu aproveitava para namorar mais um bocadito. E quanto leite á custa destes bocaditos tirei e não levei ao posto!
ó anonimo podias ter aproveitado esse leite para acabar de encher a bilha porque no aproveitar é que está o ganho.
Está fenomenal, brutal e realista.
Melhor, não poderia ser descrito.
Atribuo a bilha-de-ouro ao autor deste post.
(Até daria para publicar uma colectânea)
Essas extintas agências "Reuters" da nossa Mumulândia, eram a razão de ser de muitas aderentes.
Fermelanities, mais uns parágrafos e valeria a pena estar sentado a autografar o lançamento do livro "Era uma vez um posto-de-leite" no "Saint-Michael Fest 2009.
As abelhudas lesadas acabaram por montar negócio perto das ex-colmeias.
Minha passagem preferida:
"rever a Guida do Benjamin que casou há pouco mas já produz leite em casa"
Sem palavras! Brilhante!
antes os locais para falar da vida alheia eram como que "marcados" se se queria saber as ultimas novidades do que fulana ou fulano fez bastava ir a um certo lugar agora os locais são cada vez mais inconsistentes uma simples cruzadela na rua serve para horas de cuchicho mesmo que o comer esteja ao lume mas algo que nunca mudou foi haver uma pessoa que traz as noticias da sua rua quero com isto dizer que que cada rua tem uma encarregada de trazer as ultimas novidades do que se la passou (que ouviram berros na casa de fulano X ou que fulano Z não aparece em casa a mais de uma semana) para muitos esta antiga tradição e uma vantagem para outros uma ocupação para outros uma reputação a manter talvez algum dia nos vamos ver livres deste flagelo ficamos a espera enquanto a nossa vida e falada nos pontos de encontro ou no simples acaso de ter encontrado uma das pessoas mais alcoviteiras da freguesia.
esqueci me de dizer que adorei este post esta espectacular
Imaginem agora como será um lavadoiro pubico ao lado de um posto do leite das vacas? Uma pessoa sai do posto e vai logo lavar a bilha ao lavadoiro.
ah ah ah
Estimado anónimo,
regozijo-me por saber que as vacas do Vale tambem dão leite ao domingo.
Estimado a.ferreira,
se eu tivesse a descaradeza de aparecer no posto do leite com a bilha de ouro iria ser trocidado pelos comentários invejosos das matriarcas presentes. Iriam logo afirmar que aquilo era herança de familia e que eu andava na rua com a bilha de ouro só para me afirmar e aparecer nas colunas do social.
Estimado posto do leite,
havia pano para mangas sobre esta tema mas ainda não estou refeito da mudança de clima. Será que José Saramago, Octávio Machado e outros grandes «escrevedores» tambem sofrem com a gripe?
Estimado KT,
essa do «ouviram berros na casa de fulano X ou que fulano Z não aparece em casa a mais de uma semana» está fenomenal. Que grande comentário. Eu diria que os berros na casa de fulano de tal eram o golo do Benfica mas o Benfica não tem jogado ultimamente. Deve ser algo mais grave.
Estimado suinicultor,
em Fermelã não, mas em Angeja conheco um posto de recolha de leite que fica mesmo mesmo encostado a um lavadouro. Só mesmo naquela terra de mil pecados. Aquilo deve ser ratar de manhã até entrar pela madrugada dentro.
Bem, vou mas é tomar os remédios receitados pelo Esteves, Dr.
abç
Estimado emplastro,
até me esqueci de sua excelência. Faz bem lembrar porque cada gota de leite conta. Por mais pequena que seja...
com ou sem bilha de ouro o post está explendido,e eu para dizer a verdade ate tenho saudades do vélho posto do leite, pois era lá que nos encontrava-mos todos os dias,no largo com as nossas bicicletas.para nao falar da altura do carnavál e suas bombitas e de um fulano que se incumodava muito e ameacava o pessoal com uma faca e mais tarde apareceu com o talher completo,mas o melhor era-mos nós,os putos da noite na altura com a roda da frente no ar es as jornalistas de bilha na cabeca a fugirem para a beira,mas para terminar digam-me uma coisa,se ainda ouve-se posto do leite que fazeriam os putos de hoje?
?
?
fumavam um ch....?
mfg
kt, na próxima, pedes-me para dar uma olhadela na pontuação. Não vá para aqui aparecer a Drª Edite.
Estimado alpenmax,
fumavam um ch..
...charro?
...charuto?
...Chá?
...Chinelo?
...chato?
...chavalo?
...chinês?
Estimado posto do leite,
a Drª Edite cessou funções neste blogue, pelo menos nunca mais por cá apareceu. Dever ter chegado à conclusão que o tacho não era compativel com a remuneração.
abç
Para começar não é demais relembrar que o post está cinco estrelas.
Também me recordo em miúdita quando lá passava, ver o largo cheio de rapazitos e rapazões de bicicletas e das mulheres aos grupinhos a falar, devia ser realmente o ponto de encontro mais in de Fermelã nessa época.
Recordo-me de ter medo das bombas de carnaval, e de salvo erro até fazerem umas bombitas com chaves num cordel com qualquer coisa lá dentro que faziam explodir ao bater numa parede.Desculpem se não era mesmo assim, mas eu era muito pequenita na época e esta é a ideia que tenho.
E quando a juntar a isso vinha aquele " circo"!! ambulante, ena pá o pessoal que se juntava no largo, parecia um arraial.
Longe vão esses tempos, no entanto a má lingua das pessoas na altura, é a mesma ou pior agora.Como já aqui foi dito só mudam os locais.
Enfim...quanto a isso nada a fazer.
Parabéns mais uma vez por este post bem conseguido.
A cegonha do vouga tambem ia levar leite ao posto? Sumasse que o raio do posto era mesmo bem frequentado por todo o jete sete da altura, toda a gente lá ia. Deve ter sido no posto do leite de Fermelã que alguem se inspirou para construir a estação da luz.
Caro Emplastro Leão
a cegonha não ia levar leite ao posto, mas passava lá no largo muitas vezes nessa hora.
De qualquer modo se fosse, também não lhe caíam as penas.
O saber estar em qualquer lugar sem alterarmos a nossa postura ou personalidade nem sermos influenciados, talvez não seja para todos ...
Cara cegonha diga isso aos que passam as manhãs no posto médico que saiem de lá piores do que entraram mas com muito mais cultura geral.
Se houvesse postos de leite, o Esteves não emitiria um grunhido furibundo cada vez que olha para a concentração de hipocondríacas que se lhe apresentam...
Olá bom dia, não sei quem fez a descrição do tema "Postos de leite", nem será isso com certeza relevante, porque, mesmo quem nunca assistiu aos factos descritos, só de ler fica com um retrato fiel dos acontecimentos, como se assistisse a um filme. Eu sei do que falo, pois presenciei in locco todas essa situações.
Meu caro Fernando, o objectivo do post era esse, tentar elucidar como era a vida no tempo dos postos do leite. A juventude actual nem imagina as experiências enriquecedoras que lá foram vividas. Os postos do leite eram as playstation e o facebook de há 20/30 anos.
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