Ultimo capitulo desta obra magnifica de Sónia Santos (finalmente na foto), desta feita, dedicada a todas as cabeleireiras de Fermelã, principalmente, as duas profissionais do cabelo que se engalfinharam na secção dos comentários deste blogue há umas semanas atrás...Portugal em Capítulos
Sónia Santos
Papiro Editora
O CABELEIREIRO
«...há muito que uma ida ao cabeleireiro deixou de ser o resultado de uma necessidade básica de higiene e passou a ser uma experiência repleta de emoção...»
«...recebe informação privilegiada sobre os meandros intrincados de toda e qualquer telenovela que esteja no momento em cartaz durante as duas horas e meia que esperar e se optar por ir a um cabeleireiro no seu bairro, recebe informação suficiente para chantagear qualquer vizinho...»
«...o atendimento é quase sempre cordial, a menos, que se cometa o erro universal do protocolo dos cabeleireiros: conversar! Aí acabou-se o sossego, a partir de agora vai ouvir tudinho sobre a pessoa que a está a atender: -quantos filhos tem, como foram os partos, que tipo de cocó os petizes têm feito ultimamente e qualquer coisa cuja culpa seja do governo...»
«...desengane-se quem pensa que qualquer uma destas profissionais de qualquer tipo de cabeleireiro têm pouca formação, senão veja-se: -é requerido pelo menos dominar dois idiomas, português e "telenovelês" e é preciso ter uma memória "RAM" de muito boa qualidade para conseguir registar e reproduzir com rigor histórico a vida e obra de 40 ou 50 clientes, incluindo a cor do vestido usado na cerimónia do mês passado...»
1 euros:
Caro mister fermelanidades, as suas bocas não me afectam particularmente. Podem afectar a concorrencia que é sã mas a mim passa-me ao lado porque todas as noites quando encerro o salão vou para casa com a consciencia do dever cumprido e satisfeita porque foi mais um dia que passei no alindamento do couro cabeludo da freguesia e arredores. Quem não paga e inventa as mais extraordinárias desculpas esfarrapadas é que se deve sentir tocado pelas suas palavras. Não eu, que trabalho de sol a sol de tesoura, pente e máquina na mão. Quanto aos seus estereótipos, concordo com muitos porque infelizmente neste ramo ainda existe muita faltinha de profissionalismo. Parece que ás vezes importa mais dar á lingua no interior do salão do que dar à tesoura.
"TELENOVELÊS"? Porque não. Se os maridos desta terra deixam as mulheres em casa sozinhas a mudar as fraldas aos filhos e vão para o tasco falar de bola porque razão as mulheres não se sentem no mesmo direito de vir para o salão falar da telenovela das 5h da tarde, da outra das 9h da noite e ainda da outra que passa ás 22h e repete ao outro dia às 11h da manhã?
"memória ram"? Talvez. Nesta profissão já que é preciso dar á lingua pelo menos que seja com factos concretos e veridicos sobre a vida da freguesia. Mas no meu salão não tenho muito por hábito prolongar essas conversas para fora do prazo de validade. Pode-se iniciar um tema sobre o marido de fulana de tal que vem das terras a cheirar a estrume de vaca mas a partir do momento em que a cliente começa a entrar nos capitulos da vida intima do sujeito dou-lhe logo um puxão no cabelo que é para ela sentir que já está a sair dos limites de educação por que o meu espaço se reje.
"hora e meia de espera"? NUNCA. Só se for na concorrencia ali mais para norte porque no meu salão há horas marcadas e nunca deixo atingir um aglomerado superior a 3/4 clientes. Gosto de manter o ar respirável e quem tiver a mais que vá cortar o cabelo ao rochico ou a canelas. Nesses lados levam mais barato mas garanto-vos que o serviço é de segunda. Nem uma tesoura esterilizada conseguem ter. A ASAE que saiba.
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