Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

Portugal em Capitulos XI

Ultimo capitulo desta obra magnifica de Sónia Santos (finalmente na foto), desta feita, dedicada a todas as cabeleireiras de Fermelã, principalmente, as duas profissionais do cabelo que se engalfinharam na secção dos comentários deste blogue há umas semanas atrás...



Portugal em Capítulos
Sónia Santos
Papiro Editora
O CABELEIREIRO
«...há muito que uma ida ao cabeleireiro deixou de ser o resultado de uma necessidade básica de higiene e passou a ser uma experiência repleta de emoção...»
«...recebe informação privilegiada sobre os meandros intrincados de toda e qualquer telenovela que esteja no momento em cartaz durante as duas horas e meia que esperar e se optar por ir a um cabeleireiro no seu bairro, recebe informação suficiente para chantagear qualquer vizinho...»
«...o atendimento é quase sempre cordial, a menos, que se cometa o erro universal do protocolo dos cabeleireiros: conversar! Aí acabou-se o sossego, a partir de agora vai ouvir tudinho sobre a pessoa que a está a atender: -quantos filhos tem, como foram os partos, que tipo de cocó os petizes têm feito ultimamente e qualquer coisa cuja culpa seja do governo...»
«...desengane-se quem pensa que qualquer uma destas profissionais de qualquer tipo de cabeleireiro têm pouca formação, senão veja-se: -é requerido pelo menos dominar dois idiomas, português e "telenovelês" e é preciso ter uma memória "RAM" de muito boa qualidade para conseguir registar e reproduzir com rigor histórico a vida e obra de 40 ou 50 clientes, incluindo a cor do vestido usado na cerimónia do mês passado...»

1 euros:

Duquesa do Cadaval disse...

Caro mister fermelanidades, as suas bocas não me afectam particularmente. Podem afectar a concorrencia que é sã mas a mim passa-me ao lado porque todas as noites quando encerro o salão vou para casa com a consciencia do dever cumprido e satisfeita porque foi mais um dia que passei no alindamento do couro cabeludo da freguesia e arredores. Quem não paga e inventa as mais extraordinárias desculpas esfarrapadas é que se deve sentir tocado pelas suas palavras. Não eu, que trabalho de sol a sol de tesoura, pente e máquina na mão. Quanto aos seus estereótipos, concordo com muitos porque infelizmente neste ramo ainda existe muita faltinha de profissionalismo. Parece que ás vezes importa mais dar á lingua no interior do salão do que dar à tesoura.

"TELENOVELÊS"? Porque não. Se os maridos desta terra deixam as mulheres em casa sozinhas a mudar as fraldas aos filhos e vão para o tasco falar de bola porque razão as mulheres não se sentem no mesmo direito de vir para o salão falar da telenovela das 5h da tarde, da outra das 9h da noite e ainda da outra que passa ás 22h e repete ao outro dia às 11h da manhã?

"memória ram"? Talvez. Nesta profissão já que é preciso dar á lingua pelo menos que seja com factos concretos e veridicos sobre a vida da freguesia. Mas no meu salão não tenho muito por hábito prolongar essas conversas para fora do prazo de validade. Pode-se iniciar um tema sobre o marido de fulana de tal que vem das terras a cheirar a estrume de vaca mas a partir do momento em que a cliente começa a entrar nos capitulos da vida intima do sujeito dou-lhe logo um puxão no cabelo que é para ela sentir que já está a sair dos limites de educação por que o meu espaço se reje.

"hora e meia de espera"? NUNCA. Só se for na concorrencia ali mais para norte porque no meu salão há horas marcadas e nunca deixo atingir um aglomerado superior a 3/4 clientes. Gosto de manter o ar respirável e quem tiver a mais que vá cortar o cabelo ao rochico ou a canelas. Nesses lados levam mais barato mas garanto-vos que o serviço é de segunda. Nem uma tesoura esterilizada conseguem ter. A ASAE que saiba.