Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008

"A filha da Adelaide do Matias lá de baixo prima do Zé Castor"

...esta é uma expressão corriqueira em pequenas povoações como a nossa Fermelã, entre outras da mesma igualha. Povoações onde todos conhecem todos, no mínimo até determinada geração, porque a partir de uma certa faixa etária mais jovial começa-nos a faltar a memória, fruto do avançar da idade e também porque "a canalha de hoje em dia dá cada pulo no tamanho" que acabamos por ficar desorientados na nossa ânsia de conhecermos toda a gente que por cá reside. As crianças que "ainda há dias nasceram" tornaram-se entretanto "homens e mulherzinhas feitas" e as habituais repórteres de rua e os costumeiros jornalistas de bancada de café deixaram de os conhecer "assim de cabeça". Foi por isso que se começaram a usar os "termos genealógicos", tal como o que dá titulo a este post e outros bastante originais que em nada lhe devem, por exemplo: "a filha da Lucinda do Raul", "o neto da Maria do Carvalho", "a filha da Fernanda do Arnaldo", ou "o moço que ajuda a sogra do coveiro".

Porque razão o conceito "termos genealógicos"? Porque na impossibilidade de mencionarmos o nome do rapazinho X ou da menina Z, por esquecimento nosso ou porque nunca os vimos na missa a orar como bons cristãos, é necessário percorrer toda a árvore genealógica da família em questão para conseguirmos explicar a alguém interessado quem são afinal aqueles dois jovens de "tão bom aspecto". 

Aqui fica outro exemplo: -o moço Y roubou ontem duas maçãs do pomar do "Ti Arnaldo" e nós queremos anunciar isso para que toda a freguesia fique escandalizada, mas não sabemos o nome do jovem gatuno. Como deveremos fazer? É simples! Basta chegar aos lavadouros e dizer alto e bom som que "o neto da tia do enteado daquele rapaz irmão da Madalena do Silvino que serviu na fábrica da Aleluia roubou duas maçãs e ainda envenenou os gatos do Ti Arnaldo com o Racomin de matar os ratos". 
Toda a gente vai ficar a saber quem é o gatuno e o rapaz não vai ter mais descanso enquanto cá morar nesta terra.

A essência da questão é mesmo esta! Fica muito mais fácil decorar todo este melodrama parentesco-familiar do que propriamente o nome do rapazinho. Contudo, existe quem não vá lá através do nome dos parentes. Em casos extremos de dúvidas e desconhecimento recognitivo, é graças às profissões que se consegue chegar à identificação do jovem X e da moça Z: "Olha marido, hoje veio cá a casa aquele rapaz que abandonou a escola na 3ª classe e acabou como ajudante de servente do Humberto, que tem aquela obra ao lado do Joaquim das estufas, conheces?" 

Responde o marido "ah, o Danielzito?".
E a esposa: "Não! Esse foi o que se meteu no negócio das farturas mais o pai, que até montaram barraca na festa da Srª Saúde quando lá estivemos há 5 anos. O moço que te estou a falar é aquele que vimos no hospital de Salreu na semana passada que estava lá à espera da mãe que tava com aquele problema da flatulência, lembras-te?".

Pois é! Nunca subestimem o poder de memória destas anciãs, porque um dia que os leitores precisem de namorar as filhas delas, as anciãs podem não saber o vosso nome mas conhecem "tim-tim por tim-tim" todo o vosso curriculum vitae amoroso com "as filhas da Rosa Maria do Iglésias da funerária" e respectivo cadastro criminal, incluindo o pontapé que deram no cão "do marido da Matilde filha da bruxa lá de cima que mora ao pé da Ti Chica do Manel Padeiro primo do Zé Tónio de Válega". Só não percebo porque razão algumas pessoas recorrem a especialistas quando querem saber mais sobre os seus antepassados. Ficava muito mais barato ir ter com uma destas autênticas enciclopédias de duas pernas e estonteante buço facial e ficávamos logo a saber tudo e mais alguma coisa sobre a nossa genealogia e respectivo tipo de sangue. Era ZÁS TRÁS!! Tudo ali "escarrapachado" em segundos! Simples, rápido, económico e letal ...sim ...letal... porque não estejam à espera que a vossa ancestralidade sanguínea seja um mar de rosas. As anciãs são sanguinárias e em algum ponto do vosso passado parental elas vão descobrir uma nódoa negra que vos vai obrigar a carregar a cruz da vergonha até ao vosso ultimo respiro. Nem que seja um pequeno piropo que o vosso bisavô tenha enviado à saída da missa "à avó da parte da mãe da Lurdes do Carlos da Alcina que tem aquele clipal onde andou o fogo de há 15 anos, que dizem que foi posto pelo Jacinto Canhoto, que vendia sucata nos Camarteis e chegou a namorar a filha do meio da viúva dos limoeiros". Não tenham a menor dúvida que a vossa vida vai ser toda bisbilhotada e exposta na praça publica, por causa desse acto menos próprio do atiradiço do bisavô e o vosso futuro irá estar sempre pintado a tons cinzentos, que poderão inclusive hipotecar aquele emprego com que sempre sonharam à secretaria dum eventual executivo da junta da freguesia.

Lembrem-se!! Por trás de toda e qualquer esquina está sempre "uma comadre do Ti Manel Tiago primo do Zé Alípio das azeitonas sobrinho do Jorge da Almira Peixeira vizinha do Bernardo Cantiflas que tem o talho por cima da Joaquina Sugapitos" (UFF...) a olhar por vós e pelos vossos excessos. Meçam bem as distâncias, respirem fundo e reflictam duas vezes antes de roubar uma saca do pão, fazer pontaria aos candeeiros da rua, ou furtar uma bicicleta que esteja mais do que duas horas paradas no mesmo sitio sem ninguém a reclamar. Se cometerem um crime destes ou algo parecido, para além de tirarem o bilhete com viagem garantida para o inferno, sem paragem nas estações e apeadeiros, ainda recebem como bónus um show gratuito de decapitação pública à saída de cada missa dominical. Uma vergonha para ser relembrada por todos os comensais em cada esquina, loja, mesa de café, salão de cabeleireiro e jornadas de caça no campo. Caso vossas excelências sejam do tipo de não se importarem com o que falam de vós nas costas, tenham em atenção que são os vossos bisnetos que no futuro irão pagar pelo que fizerem na actualidade. Já estou a imaginar algo do género para os meus bisnetos: "o desavergonhado do bisneto do fermelanidades que morava ao lado do Artur dos legumes tio do Amílcar da estrebaria partiu os óculos ao colega de turma e gamou-lhe o computador "Magalhães" para escrever "coisas" na "intermeta"...
Tal avô, tal neto, tal bisneto...

15 comentários:

Cegonha do Vouga disse...

Que post espectacular!!!
Isto é verdadeirissimo, Fermelã é um imenso Portugal ou vice-versa, é tipico da nossa tradição.

Duquesa do Cadaval disse...

Nem mais. Concordo. Está fabuloso.

Anónimo disse...

Está tão fabuloso que os comentários são só estes!

Anónimo disse...

Está tão fabuloso que os comentários são só estes!

Fermelanidades de Matos disse...

Estimada cegonha, não está assim tão espectacular.

Estimada duquesa,
não está assim tão fabuloso.

Estimado anónimo,
não era preciso repetir o comentário. Quando publiquei este post apostei com "o filho do Tino que tem a loja no Roxico" que ia ter apenas 3 comentários e por causa da duplicação do seu comentário estragou-me a média e já perdi dinheiro com isso. 50 euros que me acabaram de sair do bolso!!!! ARGHHHHHHH

Duquesa do Cadaval disse...

Pergunto eu:

mas comentar o quê? Está lá tudo bem explicadinho e sem erros (pelo menos que eu tenha dado conta). A não ser que o anónimo seja retornado (ou como se diz em França "pé preto") e por consequência precise de algum tipo de tradução para português (!?)

Lorena disse...

É mesmo verdade que usamos estes termos para chegar à pessoa em questão! Muito bem feito e lembrado também! Agora o anónimo tem que me desculpar ou não mas estes comentários são poucos mas suficientes pa dizer que tá FABULOSO! e peço desculpa ao Sr.fermelanidades porque acabo também por estragar a sua média!lol

Alien disse...

Venho aqui por este meio apenas deixar um comentário para que o anónomo não fique melindrado.






Pronto já deixei!
Boas férias escolares a todos que eu vou pra greve!

emplastro filho disse...

Sabem qual é a parte do corpo humano que não tem osso, é usada para ter sexo e que mais gosto de usar?

SABEM?

SABEM?

SABEM ME DIZER?

É A LINGUA!!!!!!!

AH AH AH

Meu pai está no talho e minha mãe trabalha no ramo do leite.

Fermelanidades de Matos disse...

Estimados "comentadeiros":

Pela alma do Santissimo Sacramento PAREM/TERMINEM/CESSEM/STOP de fazer comentários neste blogue porque cada comentário que é publicado é dinheiro que me sai do bolso à razão aproximada de 50 euros cada um. Estou aqui estou na mais pura bancarrota e a ter que pedir ajuda ao Estado como os tipos do BPN e do BPP e sabe-se lá mais quais.

O próximo post vai ser sobre a eleição da associação de pais da escola Terra do Monte e das obras na capela do Roxico. Nesse post já podem comentar, MAS NESTE NÃO!! NÃO! E NÃO!! Tenham DÓ!

menacer farid disse...

Hoje estar dia chuvoso e fria e menacer não ir para praça vender tapetes por isso menacer tambem querer escrever comentário na bluogo da formolã.

Anónimo disse...

Tenho saudades do poeta :(

Fermelanidades de Matos disse...

A mim esse tal de poeta não deixa saudades estimado anónimo. Dizem que era comunista e que comia criancinhas ao pequeno almoço. Ah não! Espera aí! Esse era um tal de Carlos Cruz, afinal!

isto nunca muda... disse...

Comigo fica a questão, será que é mais fácil decorar o nome da pessoa, ou todas as pessoas da sua família.

zeca disse...

para quem diz que o Roxico é um lugar de Fermelã que ningem sabe o que se lá passa? então andas mal informado, ou tu enganas-te e querias dizer: SE NÃO FOSSE O ROXICO FERMELÃ JÁ ESTAVA ANEXADA ANGEJA. O que te parece? Pelo menos Fermelã anexada passaria estar mais evoluida.